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Acabei de virar a última página do livro Um lugar na janela – Relatos de viagem, da tão querida Martha Medeiros. As aproximadamente 200 páginas foram um mergulho de volta a diversos destinos – mas nem sempre aos dela, normalmente era aos meus. Diversas vezes precisei reler parágrafos inteiros porque acabei viajando nos relatos dela e relembrando das minhas próprias experiências com viagens.

 

Esse gene um tanto aventureiro (mas nem tanto), de querer cruzar fronteiras nunca esteve na família Almeida (pelo menos não no Almeida materno, que foi o mais próximo durante a minha infância e adolescência). Até os oito, dez anos de idade somava poucas cidades na minha quilometragem.

 

Caldas Novas, Guarapari, Salvador e as divertidíssimas idas ao Paraguai. Sanduiche embrulhado no papel alumínio sentada na calçada e Casa China: o Paraguai merece um texto só pra ele.

 

Daí em diante viajei esporadicamente. Caldas de novo, Pirenópolis, a linda Ouro Preto (Marília de Dirceu, oi?) e no máximo uma chegadinha lá no Nordeste. Até que um dia um mosquitinho entrou pela janela de casa, mordiscou todo mundo e o passaporte não parou mais de ganhar carimbos.

 

Cabum, cabum, cabum. Bienvenido, Welcome e seja lá como se dá boas vindas em Amsterdã.

 

Em uns 5 anos conheci Portugal, Espanha, França, Estados Unidos, Itália, Suíça e Inglaterra. Estou em dívida com a América do Sul, mas pretendo começar a acertar isso em breve.

 

Cada cidade me deixou uma impressão diferente, uma impressão influenciada por alguma memória afetiva, por algum acontecimento divertido, mas todas elas me trouxeram uma sensação única: a de estar fora de mim.

 

Viajar tem dessas coisas. Em Madri é aquele velho clichê de estar dentro de um filme do Almodóvar. Coisa que já se começa a sentir dentro do avião!

 

Em Portugal eu me sentia dentro de um livro. É tudo tão poético, literário.

 

Paris, ah, Paris… É estar dentro de um sonho, de uma viagem no tempo, de um catálogo de lojas de luxo. Não tem explicação pra tanta beleza em cada esquina.

 

Roma é uma emoção sem medidas. Inacreditável estar diante de tudo aquilo. A Itália toda (pelo menos o que eu conheci dela) é inacreditável de tão linda e alto astral.

 

Londres, Nova York, as pequenas e as grandes cidades. Cada uma deixou uma marca diferente em mim. Não tem como pousar no nosso Santa Genoveva sem trazer nas costas alguma mudança na forma de ser ou enxergar a vida.

 

E nem precisa ser além-mar. Essa sensação maravilhosa me toma também em vôos domésticos e o Rio vem sendo o campeão há anos nessa categoria. Tem um não sei o quê nessa cidade que me faz ficar leve, me deixa num doce balanço a caminho do mar – embora o mar nunca tenha sido ponto de parada obrigatório nas minhas visitas anuais à cidade. É como estar dentro de uma bossa nova malandra. É verdade que a hospitalidade de uma certa moça diferente contribui muito nessa impressão. Mas já que toda impressão tem sua carga de imparcialidade…

 

E como o destino não é bobo nem nada, tratou de me arrumar um parceiro tão animado quanto. Do tipo que decifra linhas e pega metrô só pra ir comigo no Café da Amélie Poulain em nossas últimas horas em Paris. Aquele que anda quilômetros (QUILÔMETROS mesmo) pra ir comigo no Museu da Carmen Miranda no Rio mesmo depois de eu ter errado o endereço e não ter a menor pista do local certo, só de que era na frente de uma praia (sou ótima).

 

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Tem dias em que eu acordo mais cedo ou mais tarde, que o sol bate diferente no asfalto, que o dia amanhece mais fresco que o normal ou que por um motivo qualquer mudo o caminho da minha rota. Nesses dias, por alguns segundos, eu me sinto fora de Goiânia. Fora de mim. E vem uma coisa boa no peito.

 

Logo depois vem a urgência de viajar. Igual agora.

 

A urgência é tanta que eu desatei a escrever assim em plena madrugada, depois de tanto tempo de seca. Talvez era isso que estava faltando – ou sobrando, depende da perspectiva. Enquanto o feriado prolongado não vem (2013 tá judiando, né?), fico nas lembranças e na vontade doida de sair da rotina.

 

Vontade de sair fora para olhar pra dentro.

Voltando

ImageEu preciso escrever, eu preciso, eu preciso escrever. Tenho repetido essa frase há uns dois anos, prefiro nem saber quanto tempo faz.

Parei de escrever sem motivo algum e não consigo voltar pelas mesmas razões – ou falta delas.

De uma rotina de textos semanais, às vezes diários, parti pra uma vida sem escrita. Meses se passaram, nenhuma linha.

A escrita que me falta em nada se parece com aquele de ofício, a que vem na lista de funções de uma jornalista. Essa está sempre presente. Sinto falta de transcrever olhares, sentimentos, aqueles minutos de reflexão involuntária no engarrafamento.

Estou abarrotada de textos que não foram escritos.

Suspeito que ao longo dos anos tenha supervalorizado a escrita. Suspeito porque prefiro não confirmar. Não quero procurar motivos e valorizar ainda mais algo que sempre foi natural. Não me cobrei textos melhores, não me cobraram também.

Um dia simplesmente parei, pelo atropelamento das horas, pela falta de assuntos, parei e nunca mais voltei.

Estou voltando.

A ilustração é da Nidhi Chanani, uma indiana talentosa:  http://everydayloveart.com

Minha mãe nunca me deu chance. Nesses 24 anos de convivência foram poucas, bem poucas as vezes em que tive que me preocupar com ela. Minha mãe se preocupa com tudo e todos, inclusive com ela mesma. Toma conta dos problemas dos porteiros, da diarista que vive emprestando dinheiro pro filho, dos planos de viagem da vizinha, da doença da fulana-amiga da ciclana-vizinha da beltrana que mora na mesma cidade que a irmã.

 

Foi baseada nesse histórico que mais uma vez me assustei ao vê-la vulnerável. Cuidar de mãe é uma tarefa para a qual estou me preparando com o tempo. Não acho que ela precisará de mim tão cedo – você não acreditaria na agilidade e força dessa avó de três netos – mas a vida acaba trazendo essas necessidades vez ou outra. O repouso após uma cirurgia, uma virose forte, essas coisas que derrubam até leão. Que derrubam inclusive a minha mãe.

 

Cuidar dela durante a tarde de hoje foi um dos sinais mais fortes de maturidade que senti desde que a tal resolveu instalar-se na minha vida – sem minha permissão, confesso. Cozinhar, ir ao banco, pagar as próprias contas, lavar o banheiro, trocar o pneu do carro, tudo são meras trivialidades perto da responsabilidade que é cuidar de quem sempre cuidou de você.

 

Ao vesti-la, colocá-la no carro, acomodá-la cuidadosamente em casa, me preocupar com a alimentação e todo o resto, eu não estava procurando retribuir as vezes em que ela levanta de madrugada para ver se a febre passou nem quando ela liga pra me avisar que tem comida pronta na geladeira e nem tudo o que ela faz para realizar meus sonhos mais banais.

 

Só quero mostrar que ela soube ensinar e por isso eu aprendi: o carinho é companheiro da preocupação.

A cena é recorrente. Em Friends, Ross forja o próprio velório e se esconde no quarto para ver quem apareceria para o último adeus e quais qualidades suas seriam lembradas ou inventadas.

Assim como é difícil resistir a olhar um animal morto na beira da estrada, quase todos – porque generalizar é cúmulo do amadorismo – temos um desejo sufocado de saber o que as pessoas realmente acham de nós. Como se velório fosse o ambiente mais propício para a sinceridade se soltar.

A sensação é que a ausência real ou iminente de alguém o transforma automaticamente em santo. Assim foi com Michael, Amy, nosso ex-vice presidente ou qualquer pessoa que se descubra doente ou passe por algum sofrimento semelhante. A perda ressalta os valores.

Líderes comunitários quando vivos são humanos repletos tanto de qualidades quanto de defeitos, quando mortos se tornam mártires.

Amy, aos olhos do senso comum, era uma bêbada cambaleando sendo vaiada no palco. Morta é genial. Michael, morto, finalmente assume o trono de rei e deixa para trás as inúmeras controvérsias nas quais se envolveu.

A possibilidade da ausência pisca o aviso: valorize, é agora ou nunca. Enquanto o adeus definitivo traz a culpa e a necessidade de redenção pelos elogios nunca ou tão pouco destinados.

Os valores não mudam na beira da morte. Ainda que a pessoa tenha morrido salvando cinco órfãos cegos de um afogamento, valores são construídos durante a vida. A pessoa boa já era boa, o músico genial já era genial, o grande político ergueu sua carreira por décadas.

E se a gente resolver reconhecer as qualidades das pessoas enquanto elas estão aqui? Enquanto podemos olhá-las nos olhos, senti-las? Precisa coragem, né… E melhor: e se a gente resolver procurar naqueles que nos importam as qualidades que talvez eles mesmos não saibam que possuem? Precisa ter muito carinho no coração.

Liçãozinha de moral num domingo à noite é difícil.

Receita

O que me forma? Quais formas? Sou estes braços, este castanho? O que define e aponta nome e sobrenome? O que consta na ficha: minhas pernas ou meus passos? O que percorri, os buracos, o que tenho pra te contar, o samba do meu som ou o formato do meu umbigo? O que faz com que você me reconheça na rua, que me sinta ainda que de olhos fechados? A fotografia ou o roteiro? Se somos forma e conteúdo, matéria e espírito, quais as medidas que compõem essa receita? E o que difere os sabores? O que me forma: estes olhos ou este olhar?

A verdade, eu descobri, é que a gente nunca sabe se está fazendo a escolha certa. Nunca vamos saber. Sempre existe a outra opção e por mais que a gente acredite que sabe onde é que aquela rota iria dar: não, não sabemos, pois não somos nós que estamos naquele volante.

Você faz uma escolha, parece certa, mas a outra opção poderia ser bem melhor.
Ou ainda, você faz uma escolha, a suposta escolha errada, mas que vem a ser bem melhor do que alternativa.

A verdade, reformulo, é que não parecem existir decisões certas ou erradas, mas caminhos próprios. Eu torço para que a minha escolha de hoje me mantenha no caminho mais adequado, naquele que se encaixa nos meus sonhos maiores ou naquele que seja melhor pra mim. De forma mais simples: torço para que me leve para o meu próprio caminho.

Tem algo que diz que a gente deve agir – ou não agir, conforme for a situação. Esse algo, que é um personagem diferente para cada um, seja Deus, a consciência, a voz interior, um guru espiritual ou um anjo da guarda, é quem manda na situação.

Uma moça diferente disse que quando chega a hora, chega a hora e a escolha atropela a gente. No meu caso, a escolha tropeçou nas minhas pernas e saiu me arrastando pelos punhos. Quando vi já estava de fora da sala, com lágrimas nos olhos e leveza na cabeça. O coração ainda fica pesado por uns dias.

A gente – ou eu posso muito bem ser a única a me preocupar com isso – só torce para que dê tudo certo, o que quer que isso queira dizer.

‘Ultimamente tem passado muitos anos’, e eu não vi o mês de março que acabou. As chuvas de verão já foram, mas o outono ainda ensaia os últimos passos da estação passada, com céu limpo e temperatura alta. Eu não tenho visto o correr das horas de cada minuto.

O tempo voa pra consumir uma espera interminável, mas também fica para dizer das coisas boas do esperar. Ainda assim, tenho visto os amigos, recebido notícias com tanta velocidade que me perco nas minhas faltas e respostas.

Na pressa, é preciso saber do sim e do não. Saber a hora de parar e de sorrir de volta. Procurar formas, realizar-se. Ultimamente, eu não tenho visto o tempo. Me perco entre o domingo e a sexta-feira.  Porém, mais triste que a pressa, é o não saber ficar. Entre um lugar e outro, me fixei. Raízes suspensas para ter o direito de recomeçar. (E respirar. E saber o meu).

A vida é feita assim: de escolhas automáticas, de tristezas passageiras e daquilo de bom existente em um dia cheio: um almoço, uma boa companhia, um conselho ou uma risada. Os anos passam e me carregam pelas mãos.

Em contrapartida, me deixam histórias, pessoas, vontades. Os anos me fazem livre para ser  diferente daquilo do que fui e serei. Os anos me dão espaço para ser o hoje. O tempo não traz consigo a conformidade com a paisagem, mas sim  uma alegria real de se ter o controle e um amanhã baseado em toda leveza existente na loucura de cada amanhecer.